A nova ofensiva tarifária do presidente Donald Trump reacendeu temores sobre os riscos de uma grande guerra comercial, em um cenário que remete a eventos ocorridos há quase 100 anos. Ao anunciar tarifas generalizadas sobre produtos de dezenas de países, incluindo China (34%), União Europeia (20%) e Brasil (10%), Trump reacendeu um debate sobre os efeitos do protecionismo nas economias globais.
As novas taxas entraram em vigor no último sábado (5) e fazem parte de uma estratégia batizada por Trump de “Dia da Libertação”, com o objetivo de reduzir o déficit comercial americano. As medidas, no entanto, geraram fortes críticas internacionais e já provocam reações de retaliação por parte dos países afetados.
Um Déjà Vu Econômico
Analistas e economistas veem paralelos entre a atual escalada comercial e a Lei Smoot-Hawley, promulgada pelos EUA em 1930. Na época, os EUA aumentaram as tarifas de importação de cerca de 900 produtos, com elevações que variaram entre 40% e 60%, na tentativa de proteger agricultores e indústrias locais.
A medida, no entanto, foi catastrófica: em plena Grande Depressão, as tarifas afundaram ainda mais a economia mundial. Importações e exportações americanas caíram cerca de 40%, e o comércio global despencou em torno de 65%. Países como Canadá e várias nações europeias retaliaram, o que agravou a recessão e contribuiu para a instabilidade política mundial, inclusive fortalecendo ideologias extremistas, como o nazismo.
“Quase me ajoelhei para pedir que Hoover vetasse a lei”, relatou Thomas Lamont, então conselheiro do presidente e acionista do JP Morgan. “Ela intensificou o nacionalismo ao redor do mundo”, afirmou em artigo da revista The Economist.
Protecionismo e Seus Riscos
Nos anos 1920, a crise no campo e a concorrência dos produtores europeus levaram os agricultores americanos a pressionarem o governo por proteção tarifária. Hoover, eleito em 1928, cumpriu sua promessa ao aprovar a Lei Smoot-Hawley em 1930. O resultado, porém, foi o colapso das exportações: em apenas dois anos, as vendas externas dos EUA caíram de US$ 7 bilhões para US$ 2,5 bilhões.
Hoje, as medidas de Trump seguem lógica parecida: proteger o produtor local em meio a déficits comerciais. Mas especialistas alertam que as tarifas tendem a aumentar preços para o consumidor americano, reduzir a competitividade das empresas locais e alimentar tensões geopolíticas. Durante o primeiro mandato de Trump, estudos mostraram que suas tarifas prejudicaram tanto companhias estrangeiras quanto empresas e consumidores nos EUA.
A atual guerra comercial pode ter efeitos profundos e duradouros — e, como já visto no passado, o protecionismo, em vez de proteção, pode acabar agravando crises econômicas e gerando instabilidade global.








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